Sete dias passaram.
Os meus dias não se desvelam luminosos, mas teimosamente nascem e me obrigam a sair da cama. Não exigem sorrisos; nem o poderiam. Não exigem forças, mas compensam-se pelo esforço do tentar. Não me pedem garra e aceitam a apatia de cada batida cardíaca.
As minhas noites não se desfazem mais em minutos felizes e horas de sonho, mas teimos

amente continuo a sussurrar-me que talvez não faça mal sonhar. Só ainda não consigo sonhar. Nem sei se conseguirei... Sinto-me um Picasso escorrido.
Sete dias passaram com telefonemas e mensagens e e-mails e gente na minha porta e na minha sala e no meu quarto quando não me apetecia sair dele. O A Grande aparece em "busca de companhia" a cada refeição... e eu assim até como alguma coisa, fingindo não saber que é a mim quem procura neste emaranhado do meu olhar triste - sim, esses mesmos olhos que dizem que espelham a alma, os mesmos que me condenam sempre nas minhas emoções. O N liga de todo o lado e diz-me que descanse, talvez por acreditar que dormir repara todo o corpo - eu sou a prova provada que não, porque tudo em mim dói. Em sete dias já me perdi no caminho para casa, já fui à praia, já caí, já esfolei joelho e braços, já enegreci partes do meu corpo fisicamente machucadas e não me lembro de ter sorrido uma única vez. Mas em sete dias voltei às minhas salas, à poesia de Cristovão Falcão que me faz bem. E em sete dias o meu pai achou que salvei o mundo nos sete segundos da caminhada até ao lixo quando o chão era tão mais próximo, em sete dias a minha mãe mediu vezes sem conta - e como se eu não desse por isso - a proximidade dos meus ossos à pele e nos mesmos sete dias fiz o A Pequeno desembrulhar-se em sorrisos de felicidade com a simples ideia de que eu lhe havia enviado beijinhos.
Mas eu prometi-lhe. E eu nunca prometo nada a quem amo que não cumpra. Por muito que me custe. E desta vez quebra-se a cada segundo mais um pouco de mim. Mas eu tento. E avanço. Ou pelo menos tento. Na verdade, nem sei.
Passeio de manhã. Passeio à tarde. Passeio à noite. Entre cada passeio (sobre)vivo. Dizem que trabalho; eu aposto apenas que (sobre)vivo. A cada passo dado mantenho-me distante de mim. Ou penso que sim. Ou acredito que sim. Mesmo se me obrigando a acreditar como me obrigo a comer por um dia ter igualmente prometido em outras terras o mesmo a uma outra alguém que amo como a uma irmã. Passeio de manhã, à tarde e à noite e no vento que me bate na cara acredito estar um pouco mais perto do que quero estar perto e ter por perto, do que sinto, do que desejo, do que sou. Prometi-lhe. E eu nunca prometo nada a quem amo que não cumpra. Por muito que me custe. Pelo menos tento sempre. Por nós. Por te ter comigo sempre. Por viveres em mim em cada batida de um coração - o meu, o nosso, um só coração num corpo de duplicidades. E eu hei-de conseguir. Nós havemos de conseguir. Nós somos mais fortes. Nós somos fortes. Eu e tu. Verdadeiramente. E eu espero...