Da marca do café que bebem à do chá. Da marca da máquina em que fazem o café à marca da chávena em que bebem o chá. Da quantidade de canais de TV ao número de lugares do sofá da sala. Do salário do outro que se julga mais alto ao que têm como seu e como mais baixo. Do carro que o outro conduz ao que querem conduzir. Do jardim da casa ao espaço do sótão. Do número de lugares de estacionamento às pessoas que nos saúdam na rua. Dos quilos que se têm a mais aos quilos que se têm a menos. Do penteado ao corte de cabelo. Das cores da roupa à marca que se julga terem por trás. Da vida que se vê fazer à vida que se julga que faz... Por que raio têm as pessoas a mania de competir por futilidades?
Wednesday, November 18, 2009
Quando a noite caiu...
... mais um momento (fugidio) muito feliz.
A P falara-me em tempos do inesperado; como eu o espero agora! Sempre! A AR falara-me em tempos que a Felicidade não existe, mas apenas momentos felizes; como eu acredito nisso!
Tuesday, November 17, 2009
De Vidda
Numa caixa que embrulhava papéis e tiras e notas talvez perdidas encontrei Vidda. Sossegado nas folhas brancas onde o havia copiado da tela de computador. Com o mesmo jeito doce, elegante, carinhoso e sedutor. Nem sei há quantos anos me fez companhia nos minutos que levei a escrevê-lo. Não ligo a essas coisas. Não tomo nota dessas coisas. Não tomo notas sequer para reproduzir essas coisas. Como Vidda, que correu ao meu reencontro ontem, andam também uma Flor e uma Borboleta, uma Zabescaza e um sem número de outras gentes com que me fui encontrando na ponta dos dedos.
Mas ontem foi Vidda quem me fez companhia ao jantar e do alto da sua grandeza me lembrou, vaga e gradualmente, de que a sua existência tem sido mais demorada que as lembranças do D na pediatria do Instituto que nasceram depois; daquela capacidade que às vezes se desfaz em mim de crer que, quando queremos e acreditamos, muito pouco ou nada nos é impossível. Vidda lembrou-me também que o A Grande ficou de lhe dar corpo nos seus calções com suspensórios azuis e que eu sinto saudades deste teclar criador que - sem saber porquê - fui deixando de sapatear.
Talvez parta eu agora a esse reencontro.
O frio lembrou-me... também da farinheira

Li há tempos esta receita algures. Talvez no Cinco Quartos de Laranja. Hoje por caso lembrei-me dela e não deve tardar muito a que a faça. Não fosse a falta de tempo que me faz ficar pela sopa de castanhas hoje ao almoço e arregaçaria as mangas para petiscar este manjar. Picaria duas cebolas e dois dentes de alho para um tacho, mistura que ligaria com azeite para refogar a cebola e acrescentar cerca de meia a uma cenoura em cubinhos. Quebraria o lume para brando e adicionaria uns 300 gramas de arroz e cerca de um decilitro de vinho branco. Sempre mexendo para misturar ou envolver e não deixar que nada se agarre ao tacho. Entretanto escaldaria cerca de seis folhas da couve lombarda e corta-las-ia em tirinhas (tão bem quanto me é possível, pois a minha prática nestas coisas não é muita!!!) e retiraria a pele da farinheira para, ao colocar tudo dentro do tacho quando o arroz está quase cozido, estar tudo com a melhor das apresentações e o melhor sabor. Bastam uns minutos. Estando o arroz cozido, tudo está pronto a ser saboreado. Eis na vossa mesa Arroz de Farinheira e Couve!
Num S. Martinho mais atrasado...

... sopa de castanhas
É simples e delicioso. Basta cozer cerca de 100 gramas de feijão encarnado e 250 gramas de castanhas descascadas e bem limpas em água e sal qb até as castanhas ficarem bem macias. Depois, é temperar a gosto - geralmente recorro a um pouco de margarina (pouco mais que uma unha de polegar) porque ajuda a aveludar o preparado, uma pitadinha de pimenta branca para dar mais sabor, meia ou uma cebola bem picadinha e um pouco de chouriço e de presunto cortados em pedacinhos. Nada de abusos. É deixar cozer e ir mexendo durante cerca de trinta minutos e rectificar a quantidade de água e o tempero. Depois há que adicionar massa fininha e um pouco de azeite e deixar cozer mais dez minutos. Mexe-se uma vez por outra. É um preparado a comer, com ou sem pão torrado, triturado ou não, bem quente. Delicioso!
Monday, November 16, 2009
Saturday, November 14, 2009
Friday, November 13, 2009
Este é o texto do saber do Bernardo
Falo-lhes tanto de Pessoa. Falo-lhes de pessoas na realidade. Lembro-os que o são. Por vezes parecem(-me) tão esquecidos... E depois, por vezes, recebem-me em palavras que me surpreendem, que se tornam tão inesperadas quanto o sol que me bate nos olhos e não chega sequer a perturbar no calor de um mimo a quem nos quer e queremos bem (é nesses momentos que vemos tão melhor!!).
Do alto dos seus vinte anos tenho poemas do I para a miúda que ama, daqueles que escreve com alma e coração e me pede que corrija para não passar vergonha; outros não teriam vergonha das palavras mal escritas, mas do poema que as coisas do coração lhe escrevem. Do alto dos seus quase vinte anos tenho do J a sabedoria de uma adolescência requintada de descobertas e de certezas que só os adultos se atrevem a questionar - eu não devo sê-lo na verdade porque não o questiono; limito-me a ouvir. Do alto dos seus menos de vinte anos escreve o B para que eu corrija sobre o Sol, o Sonho e a Razão... E eu corrijo apenas a ortografia por nada mais haver talvez a corrigir. Como disse Pessoa, "Sentir? Sinta quem lê!". Como eu o sinto! Ai, como eu o sinto!
"Todas as pessoas têm hipóteses. Hipótese de dizer mamã ou papá quando aprendem a falar. Têm a hipótese de escolher o amigo x para a equipa do que quer que seja. Têm a hipótese de escolher o curso para que vão ou mesmo o carro que desejam comprar.
Mas será que toda a gente possui a hipótese de ter Amor na sua vida? Aquele amor que nos liga aos outros, aos bens pessoais ou mesmo a nós próprios? Há quem não acredite em Amor (...). Mas será que é mesmo assim ou somos nós que simplesmente não lhe damos uma hipótese? Somos nós que não damos a hipótese a certa pessoa do beijo que ela merece e que nós tanto anseamos dar. Somos nós que inventamos demasiadas complicações para evitarmos estar com as pessoas de quem gostamos e que gostam de nós. Somos nós que guardamos demasiada preguiça para tentar alcançar os sonhos que temos ou algo que queiramos. Somos assim... Somos assim porque temos medo. Medo de sofrer, de amar e não ser correspondido, de querer beijar e não ser beijado ou mesmo de tentar alcançar algo e não conseguir. Medo de uma sociedade fria e escura que nos contagia até aos ossos.
Porque não existe um sol? Todas as pessoas merecem o seu sol. (...) Claro que, muitas vezes, existem dificuldades ou mesmo precalços, mas a vida é mesmo assim. (...) Apenas quando lutamos e desejamos realmente algo ou alguém é que esse algo ou alguém se torna realmente nosso e ficará connosco para sempre.Por isso chega de conversa, acabem de ler e vão procurar o vosso sol. Dêem-lhe uma hipótese. Porque eu já encontrei o meu."
Mas será que toda a gente possui a hipótese de ter Amor na sua vida? Aquele amor que nos liga aos outros, aos bens pessoais ou mesmo a nós próprios? Há quem não acredite em Amor (...). Mas será que é mesmo assim ou somos nós que simplesmente não lhe damos uma hipótese? Somos nós que não damos a hipótese a certa pessoa do beijo que ela merece e que nós tanto anseamos dar. Somos nós que inventamos demasiadas complicações para evitarmos estar com as pessoas de quem gostamos e que gostam de nós. Somos nós que guardamos demasiada preguiça para tentar alcançar os sonhos que temos ou algo que queiramos. Somos assim... Somos assim porque temos medo. Medo de sofrer, de amar e não ser correspondido, de querer beijar e não ser beijado ou mesmo de tentar alcançar algo e não conseguir. Medo de uma sociedade fria e escura que nos contagia até aos ossos.
Porque não existe um sol? Todas as pessoas merecem o seu sol. (...) Claro que, muitas vezes, existem dificuldades ou mesmo precalços, mas a vida é mesmo assim. (...) Apenas quando lutamos e desejamos realmente algo ou alguém é que esse algo ou alguém se torna realmente nosso e ficará connosco para sempre.Por isso chega de conversa, acabem de ler e vão procurar o vosso sol. Dêem-lhe uma hipótese. Porque eu já encontrei o meu."
Leva-me aos fados
Tenho encontro marcado com Ana Moura sábado. O sossego da noite, o trinar das guitarras no embalo das violas. Ela levar-me-á pela mão como criança pequena que descobre novos mundos no mundo. Far-me-á emocionar em lágrimas com o fado que me lembra alguém, com o fado que me lembra o que vivi com alguém, com o fado que me lembra o que não vivi com alguém, com o fado que me faz crer poder ir vivendo. Ana Moura levar-me-á aos fados, caminhando isenta de passagem na sua voz, embrulhada nos versos dos poemas de outros cuja poesia poderia tantas vezes ser minha. Está marcado para sábado. E eu estou já no cais de embarque para essa viagem.Tuesday, November 10, 2009
Porque também aquece em dias frios
Enzo Bianchi, lembrou-me Laurinda Alves, afirma que tudo o que sabe sobre a vida e o amor aprendeu com o fogo. Acrescenta Laurinda Alves nesse texto que me passou pelos olhos que "um fogo que arde nunca deixa ninguém indiferente". Concordo. Suscita as mais variadas reproduções, realidades, sentimentos, atitudes... e nem sempre é destrutivamente sinónimo de arder. Não tem de sê-lo. Há que acreditar nisso.
Também eu ando nessa rua
O Montepio Geral apoiou, elas cantaram e encantaram e (o) Tordo não ficou torto de as ouvir. Quando o país se lembra dos seus poetas é sempre de aplaudir de pé. Ary dos Santos e a sua obra poética foram homenageados, celebrados, lembrados e versados nas vozes de Luanda Cozetti, Mafalda Arnauth, Susana Félix e Viviane. O projecto Rua da Saudade é um projecto a não perder.Lembrança à minha cabeça
A lixívia queima. Queima as mãos, os dedos, a pele. Arde, dói e sangra. Sangra mesmo muito. Enquanto não souberem as minhas mãos fazer o que quer que seja de luvas, então que nada façam que peça luvas para sua defesa gritantemente.
Senhor Camões, como eu o entendo!
"Doces lembranças da passada glória,
que me tirou Fortuna roubadora,
deixai-me repousar em paz uma hora,
que comigo ganhais pouca vitória (...)."
Saturday, November 07, 2009
Wednesday, November 04, 2009
Saturday, October 31, 2009
A fábula do porco-espinho
Durante a era glacial, muitos animais morriam por causa do frio. Os porcos-espinhos, percebendo a situação, resolveram juntar-se em grupos, porque assim se agasalhavam e se protegiam mutuamente. Mas os espinhos de cada um feriam os companheiros mais próximos, justamente os que ofereciam mais calor. Por isso, decidiram afastar-se uns dos outros e voltaram a morrer congelados. Então precisavam de fazer uma escolha: ou desapareceriam da Terra ou aceitavam os espinhos dos companheiros. Com sabedoria, decidiram voltar a ficar juntos... Aprenderam assim a conviver com as pequenas feridas que a relação com uma pessoa muito próxima podia causar, já que o mais importante era o calor um do outro... E assim sobreviveram.Moral da História: o melhor de um relacionamento não é o que une pessoas perfeitas, mas aquele em que cada um aprende a conviver com os seus defeitos e os defeitos do outro e a admirar as suas qualidades.
Wednesday, October 28, 2009
Sunday, October 25, 2009
Também eu...
“Tenho saudades de deitar a cabeça no colo da minha avó só para ela me fazer festas no cabelo. Muitas vezes sinto que ainda preciso dela para isso”. - António Lobo Antunes em entrevista a Judite de Sousa
As paredes que me confessam
O meu pediatra, o Dr. A - que é daqueles que desejamos para os nosso filhos e sobrinhos e pequenitos de quem muito gostamos, está igual: a mesma atenção, o mesmo ar despistado quase à Professor Pardal, o mesmo sorriso, a mesma voz, a mesma calma, a mesma atenção às mães nervosas e aos pais inquietos, o mesmo homem de mãos ternas. Mesmo depois de tantos anos passados. Mas o consultório do meu pediatra está bem diferente. Diferente lugar, diferente tinta nas paredes, diferentes tons... e toda a família Pan a navegar pelas paredes. Sininho, Wendy, Michael, Peter. E o menino Peter Pan que me faz questionar a simbologia na minha visita de ontem.
Saturday, October 24, 2009
Nada como um sábado de manhã...
... com uma consulta no pediatra. Só para reviver tempos idos.
A primeira coisa que me perguntou? A idade!!!
Friday, October 23, 2009
E se se deixassem ouvir uma vez por outra?
"O bom do escudeiro ajuda a velhinha a atravessar a estrada, embora não seja nada evidente que a velhinha quisesse atravessar a estrada. Mas uma boa acção nunca pede licença."
- Pedro Mexia em Ler Outubro 2009
Thursday, October 22, 2009
Wednesday, October 21, 2009
O dia acordou choroso
Tapei o espelho do espaço. Demasiado espaço de reflexo para o que não se quer ver. Há coisas que não vale a pena sequer espreitar. Pelo menos não hoje. O vazio afinal também se espelha e vê-lo ali é tomar consciência de que é. No chão, a alcatifá-lo, as roupas de ontem, as compras desta manhã, papéis importantes em qualquer coisa e a minha sombra enegrecida pelo dia. Mais roupas. Mais calçado. Mais papéis. Mais sombras. Tudo isso é chão. E eu sou tudo isso. Em toda essa bagunça.
Sunday, October 18, 2009
Thursday, October 15, 2009
Wednesday, October 14, 2009
Susto
Há coisas que me inquietam o coração. O medo é uma delas. É um desconforto contínuo e perpétuo, um acordar sem chegar a adormecer, um pesadelo que se carrega sem escolha, um sofrer antecipado num presente que se galga ao futuro.
Tuesday, October 13, 2009
Objectivas
A minha paixão pela fotografia ressuscitou num daqueles dias em que o sol me estala na cara ao acordar quase em sobressalto. É o primeiro flash do dia num dia que não necessita de flashes. É um dia como tantos outros, seja lá o que isso quer dizer. É ter mil e um olhos bem observadores quando os meus dois desejam por instantes fechar-se. Mas estaria agora capaz de nesse embalo passar horas a fotografar os peixes que se perdem nas voltas limitadas a uma mesmo aquário, o livro mais recentemente lido no meu novo chão, as pessoas que desconheço e que me são vultos sem identidade, as saudades que sinto e no meu corpo se materializam, cada pormenor desse sorriso que conheço tão bem. Tenho a câmara ligada e os olhos velados pelo instante em que se dispara. Hoje fotografaria até aqueles a quem chamam vândalos, esses mesmos com quem eu me sento à mesa umas quantas vezes por semana e com quem ganho algum tempo... e, por vezes, dores de cabeça.Monday, October 12, 2009
Sunday, October 11, 2009
À lei do chumbo pelas pernas
Avisa-se a quem idiota de direito e dever que em nada agradam as armadilhas espalhadas pela fazenda da senhora minha avó, apresentando-se desde já desagrado com justificação própria e pessoal:
1. Trata-se de propriedade privada: lá que andem a caçar passarinhos e coelhinhos na fazenda dos outros ainda se fecham os olhos - mesmo se só por dificuldades em controlar a situação, mas javalis já é demasiado;
2. As armadilhas nunca são boa ideia, principalmente quando uma jovem-mulher-também-da-cidade se lembra de, antes de regressar à capital, apanhar umas quantas azeitonas de mesa para retalhar e não deseja absolutamente (e sublinhe-se a palavra "absolutamente") perder uma das pernas. Afinal, não só a fazenda é da senhora minha avó como as pernas são minhas.
Por nada mais haver a acrescentar fica o aviso ao caçador, idiota de direito e de dever, que eu também dou chumbos. Sempre que necessário e/ou obrigatório enquanto resultado da acção ou não acção de outro.
Saturday, October 10, 2009
Blues
Ontem passaste na névoa de um casaco branco que vestias, no levantar da minha cabeça que prendera pelo enjoo da minha própria tristeza baixa sobre o colo, nesta minha incerteza de que tudo terá sido verdadeiramente real. Mas o meu coração bateu mais forte. Bateu-me no peito. Bateu-me nas pernas. Bateu-me nas mãos. Bateu-me nos dentes. Todo o meu corpo cansado em vida respondeu a ti.
Passaste na névoa do teu casaco branco naquela tarde que me parecia infindável e desejei que aqueles segundos em que te olhei fossem mais infindáveis que qualquer tarde assim. Os ponteiros do meu relógio retardaram como os da minha vida desde um dia. Atrasados. Como eu para um dia que se sonha até mesmo sem olhos fechados. E nessa noite, como em todas as outras, dormes a meu lado, no meu abraço, na batida que ainda sinto agora em cada uma das minhas veias, que batem no teu passo compassado e no compasso da música que se ensaia para o concerto desta noite. Também isso é vida. Como os blues, como o folk, como o country que esta noite, bem menos que tu quando ontem passaste na névoa de um casaco branco que vestias, me encherão o corpo sob os focos de luz. Também isso é vida.
Friday, October 09, 2009
Foi a 6 de Outubro
Uma destas tardes estive com ML. Ouvi-a. Atentamente. Senti-me como se lesse cada uma das suas palavras. São poucas as pessoas que se expressam assim, daquela maneira suave e determinada com que falava, decidida de conhecimento e sugestiva das maiores verdades. Senti-me como se tudo o que li por ela escrito até àquele momento nada mais fosse que palavras que ali, naquele filme ainda a negro e fragmentado de uma década qualquer mais antiga, ganhavam a vida da voz que as preenchia. Será essa uma das maiores verdades, talvez: há palavras que só ganham valor na voz que lhes dá vida; outras que de tão em surdina esperam a oportunidade de um dia aparecer.
Wednesday, October 07, 2009
Nada a declarar
Estes têm sido daqueles dias em que teria tanto a contar-te. Naquele entusiasmo que tão bem conheces e eu já não (re)conheço em mim. E esses dias agora passaram e nada mais há a contar.
Monday, October 05, 2009
No selim
As manhãs continuam a gritar-se estivais ou de uma primavera descoordenada porque adiantada no tempo. O D esta manhã pediu-me, do alto dos seus oito anos intensamente vividos, que me montasse na bicicleta e atravessasse todo o percurso com ele. Eu do baixo das minhas décadas senti necessidade de pensar se seria possível sem vergonha, mas no mesmo instante puxei do guiador, aperaltei o monta-cargas e descolei paralela ao D. Agora sinto toda a viagem alucinante por entre casas e fazendas em cada músculo do meu corpo, mas numa vontade estranha de voltar a repetir a dose enquanto as manhãs se gritarem. E o D, esse, está sempre pronto para pedaladas e jogos de bola e groselhas frescas e mimo - enfim, está sempre pronto para a vida.
Sunday, October 04, 2009
Sim, Agustina, longos dias têm cem anos
Agustina diz que longos dias têm cem anos. Os meus são hoje longos e sem anos. São daqueles que passam sem passar, sem sentirmos nada de nada porque sentimos de tudo. Tenho hoje dias de sol em que chove, momentos em que o voo das abelhas nas flores que me cobrem os cabelos me cegam de sons constantes aliterativos. Fazem zzzzzzz e zzzzzzz e esvaziam-me nesse enfadonho. Sinto que vivo assim cem anos nesses sem anos que ainda não vivi. É a publicidade que as abelhas fazem de mim mesma.
Saturday, October 03, 2009
Friday, October 02, 2009
Nhac!!!
Sim, tenham pena de mim. Muita. Estou a tomar diariamente e mais do que uma vez óleo de fígado de bacalhau. Ainda só não lhe descobri o noticiado sabor a banana...
Thursday, October 01, 2009
Apontamento
O A Pequeno estreou-se na escola dos mais pequeninos. Sem choro lá ficou vaidoso no seu bibe.
Wednesday, September 30, 2009
Carta fechada
Gosto do teu irmão. Porque gosto. Por não haver forma de não gostar.
Gosto de todas as coisas nele e dele em todas as coisas. Gosto de todos os sentidos e do seu sentir. Gosto do Verbo maior de quatro letras que nele faz sentido. Gosto porque gosto.
Gosto de todas as coisas pequenas: perfume, relógio, do jazz, dos Santos, do Avilez. Todas as pequenas coisas ganham a sua importância porque nele. Também por isso eu gosto.
Gosto principalmente das grandes coisas, das maiores, das melhores: do fim do dia na Avenida e de uma bola cheia de beijo, do molhado da relva do jardim num concerto a dois, dos haagen daz derretidos pelo esturricar do sol, das conversas inesperadas, do fresco dos degraus, dos ponteiros que (ainda hoje) marcam sempre a mesma hora, das manhãs que acordam solarengas e ofuscam uma conta que quase fica por pagar... Gosto, sim, do sorriso silencioso e do riso inesperadamente cantante, dos olhos que me espelham cuidadosamente, da voz que me fala e da atenção que me ouve. Gosto de tudo aquilo que a vida não lhe consegue roubar.
Gosto do teu irmão. Porque gosto. Gosto dessa parte de mim.
Tuesday, September 29, 2009
A (com)passo
Hoje o A Pequeno começou a subir escadas em um tempo apenas. Até esta manhã os dois tempos eram uma constante: primeiro um pé, depois o outro a seu lado; degrau seguinte e um pé e depois o outro a seu lado. Hoje o A Pequeno colocou um pé no primeiro degrau, sorriu-me naquele seu ar maroto de quem está prestes a atrever-se e no degrau seguinte colocou o pé que ficara para trás. A perna bem esticada. A tentativa bem conseguida. O sorriso de quem se apercebeu de ter cometido mais um grande feito. Apetece-me dizer-lhe que não queira ser adulto tão rapidamente, que nem sempre é bom sairmos do mundo de Peter Pan, que os fantasmas são mais aterradores quando se é crescido e os obstáculos são bem mais difíceis de ultrapassar que a altura de um degrau. Mas deixei-me ficar calada. Olhei-o. Tentei sorrir, como não há já algumas semanas. E eu sei que ele viu nessa minha tentativa não muito bem conseguida o orgulho que sinto dos seus grandes pequenos feitos.Monday, September 28, 2009
Da gaveta de papéis

Sim...
"Gruas no cais descarregam mercadorias e eu amo-te.
Homens isolados caminham nas avenidas e eu amo-te.
Silêncios eléctricos faíscam dentro das máquinas e eu amo-te.
Destruição contra o caos, destruição contra o caos, e eu amo-te.
Reflexos de corpos desfiguram-se nas montras e eu amo-te.
Envelhecem anos no esquecimento dos armazéns e eu amo-te.
Toda a cidade se destina à noite e eu amo-te."
Sunday, September 27, 2009
Saturday, September 26, 2009
Na Guerra Fria o agente é a Gripe A
Tento ensinar ao A Pequeno o melhor de mim. Tenho uma série de chavões em defesa e orgulho-me de ver o rapaz feliz quando lhe gabam a qualidade. Não contava com a Gripe A e menos ainda com a resposta das pessoas a ela. Hoje dei de caras com o corpo curvado de uma mulher que, minuciosamente, limpava a máquina de fotografias do metro com toalhetes; com uma jovem de manga de camisola na passagem do torniquete com que não queria ter contacto; e garanto-vos que nunca vira tanta mão a ser lavada numa casa de banho pública como esta manhã. E tudo isto no caminho para mais um dia de trabalho...
A cereja no topo do bolo do dia foi quando no Jardim o A Pequeno engraçou com um grupo de miúdos, na hora do lanche quis com eles partilhar as bolachas - gesto que as mães tanto apreciaram até... ao simples momento em que uma das crianças decidiu roubar a garrafa de água do A Pequeno e maldosamente meter o gargalo à boca. No segundo seguinte só tive tempo de ouvir a mãe afirmar a sua indignação com o comportamento da sua cria menor de seis anos, uma criança com ar de assustada cujo único crime teria sido ter sede. Em menos de nada haviam ido embora. Atrás dela todas as outras mães e crianças. E o A Pequeno ficou sozinho, comigo, estupefacta como uma não autorizada pinga de água consegue desconsertar toda uma crise social...
Thursday, September 24, 2009
Tuesday, September 22, 2009
O mundo na verdade não vive sem heróis...
Há pouco respirei melhor durante pouco mais que dois minutos. A duração de um telefonema. Hoje é um dia importante. E quando antes descia a rua com o A Pequeno pela mão, olhou-me daqueles olhos bonitos, sorriu, beijou-me a mão e disse-me feliz encostadinho a ela: "és muito fofa!". Depois apercebeu-se que havíamos chegado ao mundo dos baloiços e dos escorregas, soltou-se, correu para a portinhola e, quando dei conta, andava já a defender uma menina polaca empurrada pelos rufias de quatro anos. O mundo na verdade não vive sem heróis...
Monday, September 21, 2009
Da força das pernas
A sensação de mal respirar é atrofiante. Sabemos que os pulmões funcionam, sentimos que o coração vai batendo e nada criamos de obstáculo junto às narinas. Mas a sensação de mal respirar é atrofiante. Em alguns momentos acentua-se e já em outros aparentemente melhora. Quando nos confrontamos com o outro há um click que não se sente e não se vê, mas que nos faz disparar em cada poro uma tentativa de máscara. Não é uma máscara de oxigénio, mas a suficiente para quem a olha acreditar ser credível e respeitar sem questionar. Mas a verdade é que no fim de tudo isto a sensação de mal respirar é atrofiante.
Friday, September 18, 2009
A linha do papel vegetal é boa
Quando colegas me chamam linha e papel vegetal pelos seis quilogramas que perdi em pouco tempo, o A Pequeno acarinhando-me diz que eu sou boa. Não sei se chore ou se ria. Beijei-o e ele sorriu pelos dois. Logo o dia ficou mais bonito.
Thursday, September 17, 2009
Wednesday, September 16, 2009
Vivo numa camarata
Sempre pensei que como filha única a minha partilha de quarto fosse com o Amor da minha vida. Ainda não. Hoje vivo numa camarata de quatro. Felizmente sem ressonos. Nenhum até agora se queixou. Um chama-se Tobias. Estou certa disso. Os outros dois, segundo o A Pequeno, respondem a Popi e Papi. São todos iguais: o mesmo vermelho, a mesma ligeireza pela água, a mesma fome quando o A Pequeno lhes dá flocos coloridos e cheirosos. Mas pela proximidade dos nomes estou certa que, provavelmente, só estes dois serão gémeos. Há duas noites que os observo. A minha insónia participa no crescimento da conta da luz, mas permite-me controlar as movimentações nocturnas da camarata de forma discreta. Alguém me sabe dizer se estarão de insónia como eu ou se os peixes não dormem?
Monday, September 14, 2009
Zeta
Sete dias passaram.
Os meus dias não se desvelam luminosos, mas teimosamente nascem e me obrigam a sair da cama. Não exigem sorrisos; nem o poderiam. Não exigem forças, mas compensam-se pelo esforço do tentar. Não me pedem garra e aceitam a apatia de cada batida cardíaca.
As minhas noites não se desfazem mais em minutos felizes e horas de sonho, mas teimos
amente continuo a sussurrar-me que talvez não faça mal sonhar. Só ainda não consigo sonhar. Nem sei se conseguirei... Sinto-me um Picasso escorrido.
amente continuo a sussurrar-me que talvez não faça mal sonhar. Só ainda não consigo sonhar. Nem sei se conseguirei... Sinto-me um Picasso escorrido.Sete dias passaram com telefonemas e mensagens e e-mails e gente na minha porta e na minha sala e no meu quarto quando não me apetecia sair dele. O A Grande aparece em "busca de companhia" a cada refeição... e eu assim até como alguma coisa, fingindo não saber que é a mim quem procura neste emaranhado do meu olhar triste - sim, esses mesmos olhos que dizem que espelham a alma, os mesmos que me condenam sempre nas minhas emoções. O N liga de todo o lado e diz-me que descanse, talvez por acreditar que dormir repara todo o corpo - eu sou a prova provada que não, porque tudo em mim dói. Em sete dias já me perdi no caminho para casa, já fui à praia, já caí, já esfolei joelho e braços, já enegreci partes do meu corpo fisicamente machucadas e não me lembro de ter sorrido uma única vez. Mas em sete dias voltei às minhas salas, à poesia de Cristovão Falcão que me faz bem. E em sete dias o meu pai achou que salvei o mundo nos sete segundos da caminhada até ao lixo quando o chão era tão mais próximo, em sete dias a minha mãe mediu vezes sem conta - e como se eu não desse por isso - a proximidade dos meus ossos à pele e nos mesmos sete dias fiz o A Pequeno desembrulhar-se em sorrisos de felicidade com a simples ideia de que eu lhe havia enviado beijinhos.
Mas eu prometi-lhe. E eu nunca prometo nada a quem amo que não cumpra. Por muito que me custe. E desta vez quebra-se a cada segundo mais um pouco de mim. Mas eu tento. E avanço. Ou pelo menos tento. Na verdade, nem sei.
Passeio de manhã. Passeio à tarde. Passeio à noite. Entre cada passeio (sobre)vivo. Dizem que trabalho; eu aposto apenas que (sobre)vivo. A cada passo dado mantenho-me distante de mim. Ou penso que sim. Ou acredito que sim. Mesmo se me obrigando a acreditar como me obrigo a comer por um dia ter igualmente prometido em outras terras o mesmo a uma outra alguém que amo como a uma irmã. Passeio de manhã, à tarde e à noite e no vento que me bate na cara acredito estar um pouco mais perto do que quero estar perto e ter por perto, do que sinto, do que desejo, do que sou. Prometi-lhe. E eu nunca prometo nada a quem amo que não cumpra. Por muito que me custe. Pelo menos tento sempre. Por nós. Por te ter comigo sempre. Por viveres em mim em cada batida de um coração - o meu, o nosso, um só coração num corpo de duplicidades. E eu hei-de conseguir. Nós havemos de conseguir. Nós somos mais fortes. Nós somos fortes. Eu e tu. Verdadeiramente. E eu espero...
Passeio de manhã. Passeio à tarde. Passeio à noite. Entre cada passeio (sobre)vivo. Dizem que trabalho; eu aposto apenas que (sobre)vivo. A cada passo dado mantenho-me distante de mim. Ou penso que sim. Ou acredito que sim. Mesmo se me obrigando a acreditar como me obrigo a comer por um dia ter igualmente prometido em outras terras o mesmo a uma outra alguém que amo como a uma irmã. Passeio de manhã, à tarde e à noite e no vento que me bate na cara acredito estar um pouco mais perto do que quero estar perto e ter por perto, do que sinto, do que desejo, do que sou. Prometi-lhe. E eu nunca prometo nada a quem amo que não cumpra. Por muito que me custe. Pelo menos tento sempre. Por nós. Por te ter comigo sempre. Por viveres em mim em cada batida de um coração - o meu, o nosso, um só coração num corpo de duplicidades. E eu hei-de conseguir. Nós havemos de conseguir. Nós somos mais fortes. Nós somos fortes. Eu e tu. Verdadeiramente. E eu espero...
Tuesday, September 08, 2009
( )
Entre todos os espíritos que habitam a casa onde vivo, há vinte e quatro horas que existe mais um. Eu. Lamento dizer-vos que o vazio não escreve nem (se) partilha e por isso não sei quando nos encontraremos. Não levem a mal. Não é por mal. É só por tristeza. Fiquem bem.
Monday, September 07, 2009
Thursday, September 03, 2009
Em conversa
O Amor cabe em qualquer lado; não precisa de espaço nem de tempo - precisa apenas de vida.
O dia do pastel e o dia do croquete
Quando Agosto se espraia em Setembro o ar perfuma-se. Só dá conta quem anda nestes corredores cor de céu, quem se encena nesta azáfama, quem vê as malas semifeitas, quem se encontra com o ralador da carne ou o polme do pastel junto aos ovos batidos para a sobremesa. A insignificância do meu leite de soja contracena com as chouriças e o bacalhau, os fritos que me dizem que não coma e que eu aspiro pelas narinas quando já cozinhados na frigideira para que nem isso me falte na vida.
Estes são os dias do pastel e do croquete, os dias em que dá jeito cada lasca de carne que não toco no prato, cada rodela de chouriço que ninguém meteu no caldo verde e o tempo vagaroso que se estende num dia quente. O telefone toca de voz incessante e, no outro lado, numa outra ponta deste país, recordam-se as contas feitas aos pastéis e aos croquetes, aos bolos de laranja, ao arroz de doce a cozer e a fazer jazer por horas determinadas nas travessas abrilhantadas de canela, ao leite-creme a queimar nos aromas do açúcar e do caramelo, aos ovos que as galinhas põem para isto tudo e às idas e vindas dos super mercados mais próximos. E nos entretantos de tudo isto lá estão as mãos e as colheres a enrolar e a moldar os pastéis e os croquetes.
Estes são os dias do pastel e do croquete, os dias em que dá jeito cada lasca de carne que não toco no prato, cada rodela de chouriço que ninguém meteu no caldo verde e o tempo vagaroso que se estende num dia quente. O telefone toca de voz incessante e, no outro lado, numa outra ponta deste país, recordam-se as contas feitas aos pastéis e aos croquetes, aos bolos de laranja, ao arroz de doce a cozer e a fazer jazer por horas determinadas nas travessas abrilhantadas de canela, ao leite-creme a queimar nos aromas do açúcar e do caramelo, aos ovos que as galinhas põem para isto tudo e às idas e vindas dos super mercados mais próximos. E nos entretantos de tudo isto lá estão as mãos e as colheres a enrolar e a moldar os pastéis e os croquetes.
As gentes da aldeia são assim. Mesmo na vila ou na grande cidade. As gentes da aldeia são assim e ainda bem. São as que arranjam num ano corrido as casas e os portões e os muros para os dois dias de festa, os que têm sempre cama para mais um ou mais dois ou mais três ou todos os que apareçam, aqueles em cuja mesa nunca há fome porque a fartura é de alegria e trabalho, aqueles que não têm idade porque se eternizam em lembranças.
A minha tia P é gente da aldeia, é gente da vila, é gente da cidade. A minha tia P é uma Senhora. Daquelas com S bem maiúsculo como as que só em Senhoras como a minha mãe encontro. É a tia P quem nos desperta com as histórias das azeitonas em Outubro e nos acorda com o sabor a feijoada por alturas de Novembro, com os barulhos das panelas das couves e do bacalhau em Dezembro, com a fumarada do leite-creme em Janeiro e em Fevereiro com o doce do arroz. É a tia P quem faz a primavera mais primaveril com as tortas de laranja em Março, as sopas aveludadas em Abril e as lulas em molho de tomate em Maio. O verão de Junho refresca-se nas saladas de atum, nas sopas frescas de feijão verde que presenteiam o início das férias escolares e no empadão de Agosto. Na verdade, as feijoadas não são só Setembro nem o leite-creme é Janeiro. Nada é nada porque é tudo e em qualquer altura. Afinal, a minha tia P é gente da aldeia, é gente da vila, é gente da cidade. Nada tem prazos nem datas fixas. Tudo na tia P é generosidade e os pratos - como tudo nela menos o seu luto - tem todas as cores.
Mas Setembro é sempre o dia do pastel e o dia do croquete, das conversas sobre as festas, a igreja em obras, os santos que saem à luz do dia em imagens carregadas a ombros pelos homens. Às mulheres deve caber apenas o afazer das cozinhas. A todas essas mulheres que, como a minha querida tia P, têm a generosidade de ser gente da aldeia, gente da vila e gente da cidade.
Com a pena na mão e o "credo" na boca
Nem sempre os caminhos mais fáceis são os que mais valem a pena com que se os escreve. Muitas vezes são percursos mais assustadores, daqueles em que cada sombra não nos descansa do calor, mas arrepia a alma até ao seu mais profundo; daqueles em que tudo nos é desconhecido e um suspiro arrastado no confronto. Nem sempre os caminhos mais fáceis são aqueles que se espelham da nossa mente e nos orientam. O inesperado de que me falaram em tempos voltou a aparecer pelas minhas bandas - que para o inesperado devem ser magnéticas, diria - e o que tenho a fazer tenho a fazer por minha conta e risco, no todo que esse risco implica e no que estou disposta a correr. Nem me quero perguntar se estou disposta a corrê-lo. Vou lançar-me apenas a ele. Com a pena na mão e o "credo!" na boca.
Tuesday, September 01, 2009
Monday, August 31, 2009
Uma só vida parece pouco...
"Uma única vida é pouco. O rosto é demasiado rápido a mudar nas fotografias. As crianças imaginam tantas coisas acerca do mundo e, mais tarde, percebem que não conseguiram imaginar aquilo que era mais importante.
(...) Uma única vida é pouco. Para se fazer aquilo que se sabe e se pode e se quer e se deve fazer é preciso deixar muitas outras coisas para trás. Essa é a conclusão a que se chega logo no fim da adolescência."
- José Luís Peixoto
O pincel azul aterrou aqui
Sou loura pela primeira vez. Deveria dizer pela segunda já que quando a carecada com que nasci se semeou o fez de tons de oiro. Mas aqui nada se coloriu. A dizer, que se diga antes que perdeu a cor. A verdade é que mal me consigo olhar no espelho e, quando arrisco fazê-lo num momento quase de loucura, não me encontro porque quem vejo não devo ser eu. Há cortes que nos cortam mais que imaginamos. A esperança que fica é que quem gosta de nós goste da mesma forma. Só isso vale. Só isso conta.
Friday, August 28, 2009
Quem fala assim não é gago
"For me, personally... To act with my clothes on is a performance; to act with my clothes off is a documentary." - Julia Roberts
Monday, August 24, 2009
Quem não tem cão trata de gata
O meu vizinho do andar de baixo tem uma gata. A gata do meu vizinho do andar de baixo encontrou, entretanto, o gato da sua vida e rapidamente o prédio se brindou com três gatinhos. Quando demos conta tínhamos o mundo dos gatos a viver mesmo por baixo do nosso.
O meu vizinho do andar de baixo tem uma gata que com o gato da sua vida - ou um deles que isto com as gatas nunca se sabe muito bem... - teve três gatinhos. Mas o meu vizinho do andar de baixo tem também férias e as férias do meu vizinho são só dele. Hoje mais uma vez fui alimentar o mundo dos gatos do meu vizinho. Uma lata por cabeça num miar impressionante de agradecimento num roça-roça infindável nas minhas jeans que de lavadas foram dar banho às pulgas no tanque mais próximo.
O meu vizinho do andar de baixo tem uma gata. E eu, temporariamente, tenho uma gata-dependente-de-mim.
Saturday, August 22, 2009
Pinho-mel
Sento-me numa cadeira que não é minha; apenas igual àquela que me preenche o possessivo. Sento-me a uma secretária que não reconheço, despida como se nua de outras horas passadas, de barriga quase encostada ao som do teclar dos dedos nas palavras que se deixam construir pelo rasgar de pensamentos. Engano o tempo ou, talvez, me deixe assim enganar por ele. Há tantas coisas que nunca percebemos! Que faço eu numa secretária que não é minha, mas que se despe perante mim para me receber? Que faço eu numa secretária onde não vou colocar nada que seja Eu se não mesmo a minha pessoa, vestida pelo tempo que arrasta o tempo quando os pensamentos se embranquecem de ideias?
Eu pensava sentar-me aqui e neste desconforto do desconhecimento possibilitar-me conhecer, rascunhar qualquer coisa, elogiar a eloquência, talvez pensar vagamente na direcção mais certa. Limito-me a estar sentada. Limito-me a descer e a subir a altura da cadeira como se isso de alguma forma me enormizasse. Mas não... Nem a mente. Nem o espírito. Só mesmo o corpo. Este que aqui fica vestido pelo tempo na cauda que vai deixando no seu arrastar.
Hmmm... II
Sonhar. E às vezes sonhar é poder sonhar verdadeiramente.
Às vezes sonhar verdadeiramente é poder ser feliz.
Friday, August 21, 2009
Tuesday, August 18, 2009
Movimento Perpétuo Associativo
Em Abril a revista The Economist recomendava a Portugal investimento na mão-de-obra. Ao ler estas palavras, sorrio e lembro-me da grande voz da Ana Bacalhau cantando a canção mais intemporalmente portuguesa...
Porque não há duas sem três - outra sugestão de leitura

Um inquérito patrocinado pelo New York Times há cerca de três anos considerou esta obra de 1987 como sendo a melhor obra literária dos últimos 25 anos. A autora, que se disse ao jeito de Woolf como "uma escritora mulher e negra", venceu os Prémios Nobel e Pulitzer, entre outros dos mais prestigiados prémios literários. Beloved é o primeiro de uma triologia que se completa em 1992 com Jazz e em 1999 com Paradise.
A Guerra da Secessão americana como em E Tudo o Vento Levou de Mitchell numa perspectiva que dá prazer e estômago descobrir.
Sunday, August 16, 2009
No país dos Agostinhos
Agosto é mês de férias; aquelas férias que eu não gozo por vários motivos. Agosto é mês de havaianas às bolas; aquelas que eu não calço por vários motivos. Agosto é mês de sestas; aquelas que eu não durmo por vários motivos. Agosto é mês de bares; aqueles que eu não frequento por vários motivos. Perguntam-me vocês que Agosto é então o meu? Sei-o eu e de nada me queixo, acreditem. Em quinze dias os Agostinhos voltam cabisbaixos ao trabalho e eu, voltando, é com a leveza de Agosto - aquela que nem sempre se sente por vários motivos - num Setembro que dizem que vai ser de cheiro a verão.
Thursday, August 13, 2009
Paris também tem este encanto
Sempre o imaginei como um Pai Natal. Não pelo preto das roupas pela perda ofegante de uma das vidas que gerou. Pelas barbas. As mesmas barbas que há anos espero que cresçam um pouco mais e se tinjam de branco. A idade justificá-lo-ia. Não é velho. Não como o verdadeiro São Nicolau. Mas tem uma idade simpática para a neve ir cobrindo o rosto.
Ainda hoje e do alto da minha idade o vejo como um Pai Natal. Não pelo preto das roupas. Também não apenas pelas barbas que afinal nem são brancas. Talvez pela barriga. Nem preciso de fechar os olhos para imaginar os seus netos a dormitarem sobre ela, aconchegados no carinho.
Acho que é por isso que sempre o imaginei como um Pai Natal. Não pelo preto das roupas. Também não apenas pelas barbas que afinal nem são brancas. Talvez pela barriga. Essencialmente pela sonoridade do seu sorriso, pelo brilho generoso do seu olhar, pela festa na sua voz, pelo seu coração gigante e educado. Sempre o imaginei como um Pai Natal. O meu primo R.
Wednesday, August 12, 2009
A ciência quando é estranha
«Uma pesquisa da Universidade de Duke, da cidade de Durham, no Estados Unidos da América, indica que um homem de Neandertal pode ter sido morto por humanos modernos num confronto ocorrido há mais de 50 mil anos.
O estudo dá pistas de que os humanos modernos podem ter contribuído para o desaparecimento dos neandertais.
Os investigadores analisaram o esqueleto de um neandertal chamado Shanidar 3, um dos nove neandertais descobertos entre 1953 e 1960 numa caverna no nordeste do Iraque. Shanidar 3 foi morto entre 50 mil e 75 mil anos atrás quando tinha entre 40 a 50 anos de idade.
No esqueleto foi identificado um ferimento profundo que atingiu uma das costelas no lado esquerdo. Segundo os cientistas, este ferimento pode ter sido causado por uma lança usada pelos humanos modernos, mas não por homens de Neandertal.
"O que temos é um ferimento na costela com uma série de possíveis explicações", afirmou Steven Churchill, professor associado de antropologia evolucionária na Universidade de Duke, citado pela BBC., acrescentando que “não estamos a sugerir que aconteceu um ataque relâmpago, com humanos modernos a marchar pela terra e executando homens de Neandertal".
"Acreditamos que a melhor explicação para este ferimento reside na utilização de uma arma que pode ser lançada e, levando em conta os que a tinham e os que não tinham, isto implica em pelo menos um acto de agressão entre as espécies".
Na pesquisa, Churchill e os seus colegas usaram um arco e flecha especialmente calibrados, cópias de antigas pontas de lança feitas de pedra e várias carcaças de animais para chegar a esta conclusão.
O estudo foi divulgado pela publicação científica Journal of Human Evolution.
A investigação não conclui, no entanto, de forma definitiva quem foi o responsável pela morte de Shanidar 3 ou qual foi a razão.»
O estudo dá pistas de que os humanos modernos podem ter contribuído para o desaparecimento dos neandertais.
Os investigadores analisaram o esqueleto de um neandertal chamado Shanidar 3, um dos nove neandertais descobertos entre 1953 e 1960 numa caverna no nordeste do Iraque. Shanidar 3 foi morto entre 50 mil e 75 mil anos atrás quando tinha entre 40 a 50 anos de idade.
No esqueleto foi identificado um ferimento profundo que atingiu uma das costelas no lado esquerdo. Segundo os cientistas, este ferimento pode ter sido causado por uma lança usada pelos humanos modernos, mas não por homens de Neandertal.
"O que temos é um ferimento na costela com uma série de possíveis explicações", afirmou Steven Churchill, professor associado de antropologia evolucionária na Universidade de Duke, citado pela BBC., acrescentando que “não estamos a sugerir que aconteceu um ataque relâmpago, com humanos modernos a marchar pela terra e executando homens de Neandertal".
"Acreditamos que a melhor explicação para este ferimento reside na utilização de uma arma que pode ser lançada e, levando em conta os que a tinham e os que não tinham, isto implica em pelo menos um acto de agressão entre as espécies".
Na pesquisa, Churchill e os seus colegas usaram um arco e flecha especialmente calibrados, cópias de antigas pontas de lança feitas de pedra e várias carcaças de animais para chegar a esta conclusão.
O estudo foi divulgado pela publicação científica Journal of Human Evolution.
A investigação não conclui, no entanto, de forma definitiva quem foi o responsável pela morte de Shanidar 3 ou qual foi a razão.»
fonte: msn
A ciência
«Descoberto processo imunitário que pode ajudar no tratamento de várias doenças
Cientistas argentinos descobriram o mecanismo que interrompe o sistema imunitário humano, o que poderá ser a base para o desenvolvimento de tratamentos contra o cancro, diabetes e esclerose múltipla.
O grupo de investigadores, liderado por Gabriel Rabinovich, encontrou "as engrenagens moleculares" que fazem com que o sistema imunitário seja desactivado e permita, por exemplo, a expansão de células cancerígenas, afirmou um comunicado do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas (Conicet) argentino, citado pela agência Efe.
A descoberta é fundamental para o desenvolvimento de terapêuticas contra tumores ou doenças como a esclerose múltipla, a artrite ou a diabetes, entre outras, que surgem quando o sistema imunitário age sem necessidade e ataca os próprios tecidos, explicaram os pesquisadores.
"Este circuito capaz de silenciar o sistema de defesa é conhecido como 'tolerância imunitária’. Esta indução de tolerância tem uma importância-chave para evitar o desenvolvimento de doenças auto-imunes e de promover a aceitação de transplantes", afirmou o Conicet.
O trabalho, publicado pela revista científica britânica "Nature Inmunology", começou em 2003 através de testes realizados com células humanas e ratos. »
Cientistas argentinos descobriram o mecanismo que interrompe o sistema imunitário humano, o que poderá ser a base para o desenvolvimento de tratamentos contra o cancro, diabetes e esclerose múltipla.
O grupo de investigadores, liderado por Gabriel Rabinovich, encontrou "as engrenagens moleculares" que fazem com que o sistema imunitário seja desactivado e permita, por exemplo, a expansão de células cancerígenas, afirmou um comunicado do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas (Conicet) argentino, citado pela agência Efe.
A descoberta é fundamental para o desenvolvimento de terapêuticas contra tumores ou doenças como a esclerose múltipla, a artrite ou a diabetes, entre outras, que surgem quando o sistema imunitário age sem necessidade e ataca os próprios tecidos, explicaram os pesquisadores.
"Este circuito capaz de silenciar o sistema de defesa é conhecido como 'tolerância imunitária’. Esta indução de tolerância tem uma importância-chave para evitar o desenvolvimento de doenças auto-imunes e de promover a aceitação de transplantes", afirmou o Conicet.
O trabalho, publicado pela revista científica britânica "Nature Inmunology", começou em 2003 através de testes realizados com células humanas e ratos. »
fonte: msn
Friday, August 07, 2009
Tagliatelli como fuga ao habitual
Tagliatelli com molho de manjericão e camarão. O almoço. Alourados os quatro dentes de alho no azeite, juntam-se os 400 gramas de tomate triturado. À parte, cortam-se de forma grosseira cerca de 50 a 100 gramas de pinhões e deixam-se tostar salteando. Juntam-se os pinhões ao molho de tomate e um pouco de manjericão picado. A massa? Essa coze-se à parte e quando no ponto escorre-se para uma taça. Deita-se então o molho por cima ainda quente. Depois é juntar os camarões à vontade de cada um (cozidos e com ou já sem casca). Bom apetite!Monday, August 03, 2009
Férias 0 - Catarina 1
Não me perguntem por férias. Eu não tenho férias. Tenho uma vida por construir. Bloco a bloco, traço a traço, nas misturas do cimento que se espera pouco aguado. Às vezes, parece faltar tempo de espera para deixar solidificar e o risco de tentar mais é sempre um risco de traço denso. Mas não me perguntem por férias. Tenho uma vida para construir. Nem sonho com ela. Mas partilho-a. Partilho com quem quiser partilhá-la e estiver disposto a esperar que o cimento seque. Não me perguntem por férias. Tenho uma vida por viver. Não tenho dias; tenho segundos, minutos, horas que passam a escorrer entre os dedos da mão em partilha com os entre dedos dos pés com a areia fina de lugar nenhum. Não me perguntem por férias. Tenho toda uma vida para viver. E as férias desta alguma vez têm de (finalmente) acabar...
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